O difícil de escrever é quando sei quem lê. É complicado quando o público aparece antes da obra, senta nas cadeiras em volta da mesa, dando palpites em cada frase, comendo a comida da geladeira, fazendo barulho no jardim, contando como vai ser o dia de amanhã. Dificil escrever com toda essa gente por cima do ombro, respirando nas suas costas sem dar um tempo: o tempo de fingir que não existe mais ninguém no mundo.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Outro Dia
Naquele dia acordou cedo, e como sempre, abriu a janela, desceu de havaianas até o quintal.
Naquele dia não tinha reunião, não tinha tocado o celular em algum horário perdido no sono. Não tinha grampo de cabelo na poltrona, não tinha quarto abafado.
Acordou cedo e como sempre 5 canecas em cima da mesa pra levar até a cozinha. Não tinha o chá preferido, não tinha pão, não tinha ninguém sentado na cadeira olhando.
Acordou e tomou o chá do dia anterior porque é melhor que água logo cedo. Naquele dia não tinha nenhum e-mail novo, nenhum recado, nenhuma roupa perdida. Nao tinha medo, não tinha saudades, não tinha praia nem piscina também.
E como sempre, não tinha luz. Sem fotografia, nem música, nem passarinho na árvore. Não tinha filme passando na parede do quarto, nem desconsolo no telefone ou em cima da cama.
Não tinha nuvem no céu, mas não tinha sol.
Nesse dia em que acordou cedo, e como sempre abriu a janela e desceu de havainas até o quintal não tinha pressa, não tinha prazo. Só meios tempos entre cada impossiblidade de realizar alguma tarefa de costume. Não tinha volta e mais uma vez.
Sem copos quebrados, sem fila no banheiro, sem louça na pia. Acordou no meio tempo da vida e da falta de cotidiano, cedo, desceu de havainas e meia para regar as plantas do quintal.
Mas persistia a impossiblidade de usar a torneira, a estante continuava na frente.
Naquele dia não regar as plantas seria um alívio, a única certeza entre tanta incerteza. Não regar as plantas era o que tinha a fazer tão cedo. Não regar as plantas talvez trouxesse o dia de volta pro seu eixo, ou então tirava de vez. Não regar as plantas era também a única coisa que não ficaria sem fazer, não importava o dia, não importava a falta de certeza.
Acordou cedo, e naquele dia sem fé, a estante de testemunha, desceu de meias até o quintal e regou as plantas. Simples como mandar tudo para o inferno antes do meio-dia.
domingo, 8 de novembro de 2009
Quarto
Pegue esse caminho que corre na beira da cama.
Existe um ponto nesse caminho que se chama descanso. E quando chegar nesse ponto quero que descanse por mim, o descanso dos solitários, o descanso de quem não teme.
Nesse ponto, quero que me devolva o sono, os olhos fechados ou abertos naquilo que me sustenta. Se não conseguir,
então fico ao teu lado até que durma. Existe um ponto
aqui, um ponto inexato.
Espero que você durma, e nesse ponto pretendo encontrar algum sono para mim.
Quando sonhar, que seja com esse caminho que corre na beira da suas palavras. Que seja....
Que leve para longe. Qualquer coisa que leve para longe
daqui, onde a grama desenrola lentamente da montanha ao fim da tarde, para cair em estardalhaço aos meus pés toda noite.
Assinar:
Comentários (Atom)