quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Casco

Ele acaba de desembarcar.
E nesse segundo eu posso ver as ondas que se quebram sobre o piso de madeira do quarto, arrastando tudo que há pela frente. 
Ele acaba de desembarcar. Enfiado até as ancas na areia molhada.
Ele acaba de desembarcar.
E não se vê embarcação alguma, ele veio sozinho, salivando mares. Escorrendo sais em cima dos travesseiros. Ele acaba de desembarcar. 
O mar arremessando-o contra as paredes.
A besta pateando na praia.
Chafurdando em dobras de lençol. Ele acaba de desembarcar. Sobre a minha cabeça, trincando mármores. É longe, tão longe o lugar aonde ressoa esse desembarque, e eu o vejo gigante me engolindo agora. Aqui na minha frente, ele acaba de desembarcar, o cavalo.

(Sobre o desembarque que foi relatado em um texto sobre um Cavalo que eu não vi. Quem escreveu o texto estava encantado com a possibilidade de inventar um mundo com a sensação da palavra. E também para aquela, que me contou da besta, das patas, das ondas.)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Dias Quentes

É uma arena. E você se posiciona entre o touro e a manhã.
Um delírio violento
arranca teus olhos do rosto. 
Te arrasta pela superfície afiada de um horizonte cru 
- te sangra impiedosamente -
Te fala daquilo que você desconhece e não sabe falar. 
Os ouvidos surdos agora.
Você quer outra vez. 
O galope.
A areia. 
Os cascos.
A palavra. Te abrindo a boca.
O gozo. O grito inaudito entre os dois.
Você quer arrebentar o dia com as mãos. 
Que ele venha novamente 
e você estará despreparado.







Caco de Vidro

Escrevo para te sussegar em mim. É dizer escondido uma história.
Se sua porta fechar fico deserto. 
Faz de conta que é assim.  
Eu, tão fragmento, que duas de mim. A mão e o rosto se encontram 
como se não se pertencessem.