Fantasio com o dia em que irei embora. Me levanto decidida e com o peso da despedida escorrendo pelas costas ao me sentar na beira da cama. Apenas um respiro longo antes de dizer, tranquilamente, que já não posso mais. Já não posso mais. Então me levanto, e recolho o que é meu. E a partir desse ponto: não consigo nunca imaginar o que eu faria então com tudo que é meu e que carregaria embaixo do braço pelo mundo, como se andando então eu pudesse curar o corpo de toda ansiedade e de todo medo, como se meu mundo coubesse embaixo do braço, como se na saída do quarto em penumbra eu não fosse tropeçar e te acordar com o barulho. Como se não fosse isso o que eu mais quisesse: que você acordasse e me pedisse pra ficar mais um pouco antes de fugir, ainda tão escuro, ainda tão frio lá fora, ainda tão cedo na manhã, e que se eu ainda quisesse fugir no dia seguinte, no horário comercial, com tudo funcionando, então eu podia voltar pra esse ponto, na beira da cama. E tentar imaginar outra vez o que faria com todas essas coisas embaixo do braço, e talvez chovendo, e talvez ventando e o guarda-chuva imprestável. E talvez sol no fim do quarteirão que fica antes de chegar lá, e talvez você me desse uma carona até lá, e a gente colocasse uma cadeirinha na calçada e sentasse pra observar o “aqui”, e eu chorasse baixinho essa solidão meio bossa nova, que não larga a gente jamais.