domingo, 12 de dezembro de 2010

Casa de Família


- Cometemos um deslize...
O tom era grave. Não restava dúvidas de que algo sério havia acontecido, ainda nos primeiros minutos daquele céu azul.
- Cometemos um deslize ontem a noite... esquecemos de colocar os filhos na cama.
A manhã seguia como uma uma imagem forçada, a nuvem que corria no céu não parecia pertencer ao cenário. Nem as palmeiras e o Sol, um dia fictício em Malibu.
As roupas precisavam ser lavadas, no fundo do corredor um cesto transbordava casacos e cores. As louças deviam ser lavadas. Alguém precisaria colocar uma música para tocar na sala.
- Cometemos um deslize ontem a noite... esquecemos de colocar nossos filhos na cama.
Os filhos....
Quantos seriam naquela manhã? Teriam passado a noite largados pela casa, em completa desordem?
- Como você sabe?
- Os lençois da cama estão intocados... não conseguiram chegar em seus quartos ontem... E agora temo que o pior possa ter acontecido... Temo que tenham se estragado.
A manhã seguia.
Os filhos....
E então onde estariam? Por que não se ouvia barulhos infantis pela casa?
- Sinto. É claro que se perderam.... não espero que algo possa ser feito.
No fim do corredor, sob o monte de roupas para lavar está o pequeno. Chegou tão perto. Mais um pouco e teria alcançado a cama.
- Como pôde esquecer de colocar as crianças para dormir? Como pôde? Agora não passa de um trapo colorido, mal se distingue dos casacos e meias de futebol que se amontoam durante a semana neste cesto.
A manhã seguia como um grito entre enfeites dourados de um mal gosto completo.
O cesto foi esvaziado e as roupas colocadas na máquina. Era evidente que nada seria como antes. As crianças se amontoavam pelos cantos da casa.
Quantos seriam naquela manhã?
Uma cantora cansava a voz no repeat do aparelho de som.
Ainda restavam as louças na pia, e a água lavando o sabão dos pratos seria apenas um jeito de esquecer que a manhã continuava seguindo.
- Cometemos um deslize.
Os filhos, aonde estariam eles? Entre as estantes de livros do escritório, entre os panos de chão da área de serviço, entre os gritos da discussão que se seguia na mesa do café da manhã (de quem seria a culpa). Soterrados pelas panelas velhas e sem tampa, perdidos entre a poltrona e o telefonema para reclamar da internet e do almoço na casa da família.
E o medo de que os filhos se perdessem e de que o pior pudesse acontecer: que pudessem se estragar, de que não voltasem mais.
Ela fechou os olhos, ele fechou os olhos. Nada daquilo estava acontecendo. Ela abriu os olhos, de casaco vermelho, na entrada da casa de praia. Não tinha ninguém e a água fervia e berrava na cozinha. Ela fechou os olhos imaginando uma outra vida, que começava assim: Cometemos um deslize, ele dizia logo cedo, o sol queimando o rosto.
Abriu os olhos. Era engraçado imaginar ele sendo um pai em Malibu.