segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Segredo-te

O sol na parede se cansa desse mal estar, dessa falta de orientação matinal que me acomete. Um enjôo quando lavo a primeira colher do dia, e encho a chaleira com água, sabendo que nada disso está livre de segredo. Sento no sofá com as pernas mansas esperando as palpitações, os calores, os respiros, os ácidos corroendo o estômago, um pequeno ritual de auto comiseração e delírio romântico. Os livros em cima da mesa se cansam. O dia inteiro desmorona com o peso de um pano encharcado, borrando os pensamentos, Francis Bacon, me contorço sem conseguir juntar palavra com palavra, a concentração soterrada pelo imenso pano de chão que se abate sobre qualquer possibilidade de concluir um único paragrafo de leitura. O último gole do chá é sempre sem temperatura, detestavelmente menos que morno, indizível. 
É preciso colocar os tatames no sol, recolher a roupa do varal, podar a trepadeira insana que parece se alimentar do bafo quente dos dias e cresce desordenadamente e sem lei. É preciso.
É preciso parar. Escutar o ranger da porta que fecha no vizinho. Dormir. Descansar nas suas palavras. É que eu precisava dizer dessa náusea que cobre as paredes, que são os meus gestos. É só uma languidez desproporcional. Até eu me canso desse jogo de pequenos horrores que eu jogo comigo mesma logo que acordo e antes de dormir. Enfim, são apenas mentiras, as manhãs correm como sempre. O sol na parede é só indício de que consegui acordar cedo, e isso me anima. Nenhuma das coisas da casa carrega esse cansaço indizível que nem o último gole do chá consegue materializar. São apenas mentiras. Fábulas de acordar todo dia em segredo.