domingo, 26 de abril de 2009

Solo

Do estado das coisas
E de mim mesma, e de quando não sou mesma, e me ultrapasso
Em lentas pilhas daquilo que se coleciona do tempo.
Dos mundos que se precipitam em cada divergência,
Em cada descontração de tempo, em cada liquefação, em cada transformação
Do estado das coisas.
Do que transborda de cada historia prensada.
O que transborda de mim, e me ultrapassa.

“a duração é tão somente essa própria coexistência, essa coexistência de si consigo”

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Que Acontece Quando

As coisas se estendem nessa direção, onde não se acostumou a sentir, como não se está acostumado a. Do outro lado da braçada um. Daqui de longe, esquecer de olhar. Agora em volta não tem. Se ficar ruim. Se ficar pior. A imagem não parece ajudar, nem os seus olhos ou os seus ou os seus. Nem a sua mão, nem sua voz, nem a sua. Não é pra ninguém que eu quero falar, não é com vocês que fico tranqüila, não é pra vocês que eu quero contar, nada. Nenhum. O muro antigo onde apoiava, a casa velha onde deitava. A sala aberta, a porta escura, a carta crua, a estúpida calmaria, as folhas sujas. E tudo que foge embaixo da terra. O dia pende nesta direção. A luz é fria, o sino toca sem campanário, o sino toca na mão de alguém, o céu devora os risos largos. A sua cara. A vontade não se sustenta nessa direção. Nem os seus passos. O dia morre. O dia turvo, o dia estúpido. Qualquer dia seria um. Você vestido de. Todos os rostos. E o seu fruto espalha nesse corredor, esses vícios lentos, essas outras coisas. Elas se compreendem nesse fluxo torto. Que eu não gosto. Que eu detesto, como detesto. Se está só, sem ter pra onde.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Estudos Para a Casa

Penso um lugar claro, tão claro que fosse talvez impossível reconhecer as fissuras que pudessem existir nestas paredes que penso.
Penso eu e ela, de azul escuro escapando pela luz para dentro da luz, sem conseguir abandonar o espaço.
Penso que você poderia me ajudar a desafogar minhas idéias e sei que isso pode ser muito.
Penso um mar de garfos e colheres, escumadeiras e coadores de metal, e a figura de uma mulher imantada que não consegue se livrar.
Que você poderia me ajudar a desafogar minhas idéias e sei que talvez isso seja impossível.
E nesses momentos sinto que poderia chorar porque talvez morra com todas elas dentro de mim sem ter conseguido contar nenhuma delas da maneira como gostaria.
Volto a pensar que esse estudo seria eu e ela, muito mais afogadas e rindo à toa num cômodo que não sabemos dizer qual é. Que a mulher imantada poderia cantar uma música bem baixinho, sentada no hall de entrada de lugar nenhum, porque esse seria o lugar dela: o lugar nenhum, como o meu.
Penso que esse estudo seria acima de tudo realmente um estudo, assim poderíamos experimentar os batentes das portas inexistentes e a falta delas. Então gostaria de um sofá no qual eu me sentasse e tudo fosse dito por mim sem complicações pra te observar segurar a idéia no ar.
Penso que são sempre estudos sobre a casa.