domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Dois

Ela cantarolou uma musiquinha, que tocava no fundo do corpo tão baixo, de se escutar só no escuro. Cantarolou por dias a fio. A chuva caindo fraquissima no seu pesar. Não tinha nome essa tristeza. Um jeito leve de se levar pelas horas. Ela insistia. Cada dia um pouco mais. Insistia numa alegria de instante, insistia em olhar e sorrir. Porque sorrir, sorrir engana as pessoas. Sorrir era o único jeito de dizer o que não podia ser dito. E seu corpo definhando, o toque cansado, o sentir sumindo no desgaste da pele, insistia, porque era de transformar o dentro em fora. De dizer o querer. Ele chegou um dia e ficou, para escutar o cantarolar na distância, e foi na distância que se conheceram. Foi na distância que o sono vinha todas as noites, com o cantarolar. Era acordar todo dia com essa garoa discreta cobrindo os olhos. E ele cansando o tempo em pequenas histórias para descançar o medo. Medo de perder as memórias. De perder o passado no presente. Contou uma história de erro por dias a fio. Errava todo dia um pouco, na hora de deitar. Procurava algo que dissesse que a partir de agora nunca mais teria que começar, pra não ter fim.

E desistiu.



Desistiu.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Medo

Porque às vezes eu sinto esse vazio bem grande.
É de não ter um dia depois do hoje. E de não saber, quando está longe, o que existe.
Às vezes as águas se criam dentro de mim. Meus movimentos as transformam em maremotos. Sinto tempestades e tenho medo. Invento ondas maiores do que eu.
Me afogo em águas preparadas cuidadosamente pelos meus temores. A cada minuto.
Tem cinco dias que ando em círculos nesse jardim.
Queria que sumisse.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Quando vira mar

Prometo que não foi pensando em você que eu desviei do caminho. Enquanto eu corria enxarcando os pés nos reflexos da rua depois da chuva, ou durante, não sei.... foram dias de uma garoa interminável esses. Apesar dos sorrisos. Enquanto eu corria escutando o barulho da água correr, foi impossível não pensar naquela noite, quando soltamos os barquinhos na cachoeira que descia a rua da frente da sua casa. O olhar acompanhando o barquinho, violentamente arrastado pela rua. Corri na chuva, nesse dia e nos outros que vieram depois, até hoje. São dias de chuva quando penso em você. E escorrem águas dentro de mim como se a cidade fosse eu, como se a praça, e as ladeiras, tudo estivesse em mim. E quando chove são sempre por essas ruas mineiras que corro. Atrás do barquinho, carregada pela gritaria abafada de quem brinca na rua, embaixo de tempestade, esperando que tudo se afogue na cheia do córrego.