Ela cantarolou uma musiquinha, que tocava no fundo do corpo tão baixo, de se escutar só no escuro. Cantarolou por dias a fio. A chuva caindo fraquissima no seu pesar. Não tinha nome essa tristeza. Um jeito leve de se levar pelas horas. Ela insistia. Cada dia um pouco mais. Insistia numa alegria de instante, insistia em olhar e sorrir. Porque sorrir, sorrir engana as pessoas. Sorrir era o único jeito de dizer o que não podia ser dito. E seu corpo definhando, o toque cansado, o sentir sumindo no desgaste da pele, insistia, porque era de transformar o dentro em fora. De dizer o querer. Ele chegou um dia e ficou, para escutar o cantarolar na distância, e foi na distância que se conheceram. Foi na distância que o sono vinha todas as noites, com o cantarolar. Era acordar todo dia com essa garoa discreta cobrindo os olhos. E ele cansando o tempo em pequenas histórias para descançar o medo. Medo de perder as memórias. De perder o passado no presente. Contou uma história de erro por dias a fio. Errava todo dia um pouco, na hora de deitar. Procurava algo que dissesse que a partir de agora nunca mais teria que começar, pra não ter fim.
E desistiu.
Desistiu.