terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ininterrupto Instante

Tempo.
Para escutar as gotas que escorrem pelo vidro.
Para deitar na cama sem acender a luz.
Tempo.
Para ferver mais um bule com água, mais uma foto antes do fim do dia, e mais algumas palavras antes do fim do dia.
A mão direita na palma da mão esquerda.
Para sentir o corpo estendido na cama  antes do fim  do tempo.
O vento soprar o lençol no varal antes da tempestade.
Para escutar o galo cantando cada vez mais rouco.
As tardes serem bordadas pelas senhoras na varanda. O sol escorrer pelas frestas das casas, pelas portas e janelas, pela rua.
Na palma da mão esquerda,
tempo,
para cansar o sentimento.
Para buscar as folhas que voam lá fora. Cavar um buraco para as pequenas coisas.
Para quarar o sentimento em vasilhas d’água parada. Em gestos fechados.
Em vícios.
A mão direita
para conter o movimento das aves,
conter o movimento dos ares,
conter o movimento das nuvens, dos grilos, dos olhos, dos braços.
Para conter a respiração.
Tempo
para escutar outra vez as gotas que escorrem pelo vidro.

sábado, 24 de outubro de 2009

Setembro

Que durante a noite eu tenha me debatido contra mil noites que se lançavam contra o corpo, vindas de todas as direções, que ontem minha mão buscava arrancar o coração do lugar de onde ele parecia se desmanchar demoradamente, pedaços de carne morna e pesada. Ontem o choro veio do desconhecido e todos os gestos perdidos não eram suficientes para interromper o meu corpo de sentir o medo rastejar por baixo das cobertas. Que a mão não tenha conseguido se fechar em nada, nem nas roupas, nem na carne, nem no vazio.  E então te leio em mil pedaços, e sinto a tranquilidade mais enlouquecedora de saber que o sentir coube em palavras e entre elas.... e em nenhuma delas. Ontem o coração se arrebentou contra uma solidão crespa e velha, de afetos estagnados que azedam no tempo. E você diz aquilo que escorre na minha saliva, quando à noite os desejos sem aonde rasgam a pele sem jamais conseguir me rasgar... quando tudo que eu queria era arrancar com os dedos e os dentes o que sobrou desse coração doente, do corpo, dos gestos, dos sussurros, das respirações e ainda nesse segundo de escuro úmido encontro alguma delicadeza. Porque ontem à noite ser eu nos meus ossos era pequeno demais para cada minuto de desespero que cortava a boca aberta em silêncios molhados e quentes. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Achados e Perdidos

Matei o aquário e agora posso escutar minhas memórias
em pane.
Hoje escrevo pra tentar alcançar sua voz com alguma palavra
e quem sabe dizer as coisas desse jeito franco como só ela faz.
(acabei de ler um pouco de Ana Cristina César)
São palavras simples,
me disseram a tarde que eu sou do avesso.
A cabeça latejando faz parte
do sorriso que eu dei ontem, e escolho
que nada disso importa mais do que as músicas que tocam atrás da porta.
Nem mais do que descer a rua de bicicleta.
Assim como escolho sentar desse lado da mesa, desligar o telefone durante a noite,
o lado da cama, e as diagonais de sono. E decido
a partir desse instante, as idéias dormindo na dor de cabeça, que
irei me ausentar de mim por algum tempo,
sabendo,
no sentir,
que a maior distância entre dois corpos é de uma frase
sem resposta, mais cinco azulejos e uma guia rebaixada ou então
um carro velho, duas taças de vinho e o balanço da rede rangendo no ouvido ou
o excesso de palavras, o sorriso no escuro e a mão tamborilando a mesa ou
os olhos fechados, de costas pra parede e cantoralar de mentira,
um afeto pra esquecer debaixo da cama ou
a comida fria, a pintura na parede, uma foto antiga, uma formiga, a correia solta, uma pia, garoa, fim do dia, dois guarda-chuvas.
Sinto muito se minha franqueza não pode te alcançar nessas horas do dia, se
cada palavra se divide em mais outras e a vontade
esparramada, permanece não dita. Não sei mais
o que busco, e quando encontro, me encontro de novo
no momento preciso
de escolher
outra vez
um lado da cama, novas diagonais de sono, algumas frases soltas, descer
a ladeira.

sábado, 10 de outubro de 2009

Fatos Desfeitos

Observar sua concentração, e seu jeito de acender o fogo. Sua falta de habilidade em desossar o frango, enquanto conversa com as pessoas da casa, a expressão mudando quando ele chega. Seu olhar buscando o caminhar dele pelos cômodos, seus gestos quando finge que não liga, o balançar vago da sua cabeça como quem diz “olha, parece que a manhã termina em cima dessa mesa azul de fórmica” ou “bolo de fubá”, isso, seus cabelos presos como quem diz “bolo de fubá”. Essa piscada de um olho só sem motivo nenhum. Seu jeito de contar a mesma historia 4 vezes, e levantar do sofá para alinhar o quadro da parede com a linha imaginária que você traçou entre os objetos da sala. A sensação de que tudo parece obedecer uma ordem interna. Sua precisão em disfarçar o edredon que é menor que a cama de casal, e esse ar de desgraça quando joga o arroz na pia sem mais nem menos... e depois a água que fervia para o café. Observar suas mãos tremendo enquanto tenta acender mais um cigarro do lado de fora da casa, seu desespero em ver os ponteiros do relógio chegando na hora de ir embora. E esse jeito de pedir pra ele ficar mais um pouco, mais um pouco, de soprar a fumaça do cigarro pra longe sem nem perceber. O tom de voz irritado que você usa no fim da tarde, se derretendo na poltrona, “não vou mais”.
Seu olhar cansado e parece, daqui de onde olho, que você já viveu tanta coisa, você continua descascando as frutas sem prestar a menor atenção em nada a sua volta. E depois se esquece de apagar as luzes e anda atrás dele pela casa fazendo 10 perguntas por segundo. Ganhando tempo, te observo ganhando tempo com esse jeitinho clássico de deitar na cama como quem não quer nada, dizendo palavras incorentes quando acorda no meio da noite sem saber aonde está. Escuto sua respiração, seu coração que parece bater fora do peito. Te observo me observando, enquanto escrevo com o simples desejo de brincar com os fatos que você conhece e outros que desconhece, e outros que não existem a não ser nessas linhas imaginárias, que eu traço entre seus gestos e o mundo:
Existe um conter-se e um transbordar-se. Existe um tempo, um espaço, existe um vazio que se coloca entre essas paredes e a porta enquanto os pés brincam de balançar o corpo de um lado pro outro. Existe um peso no olhar que busca a si mesmo, pra se certificar da própria segurança. Existe uma súplica ou um desespero na boca entreaberta. Uma vontade de se afogar no intervalo de estar aqui, encostada na parede, e estar lá. Uma suspensão de tempo no recostar do corpo contra o corpo. E cada vento frio que atravessa esse cômodo, cada ranger de dobradiça, cada tilintar, cada passo no corredor... Existe um detestar profundo quando os pés brincam de pisar e não pisar nesse chão frio.
Me observo te observando.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sem Título

Para o corpo náufrago,
o silêncio das ondas sussurrado ao pé do ouvido.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Reflexão - 15.05.2006

diante dessa falta de precisão
o braço fraco sustenta o peso das lembranças
o pulso doente resmunga a duração de todas elas.


e de hoje - trecho de um rodapé do "Livro por vir", Maurice Blanchot


"Aquele que deseja lembrar-se deve confiar-se ao esquecimento, ao risco que é o esquecimento absoluto, e ao belo acaso que se torna, então, a lembrança."