Observar sua concentração, e seu jeito de acender o fogo. Sua falta de habilidade em desossar o frango, enquanto conversa com as pessoas da casa, a expressão mudando quando ele chega. Seu olhar buscando o caminhar dele pelos cômodos, seus gestos quando finge que não liga, o balançar vago da sua cabeça como quem diz “olha, parece que a manhã termina em cima dessa mesa azul de fórmica” ou “bolo de fubá”, isso, seus cabelos presos como quem diz “bolo de fubá”. Essa piscada de um olho só sem motivo nenhum. Seu jeito de contar a mesma historia 4 vezes, e levantar do sofá para alinhar o quadro da parede com a linha imaginária que você traçou entre os objetos da sala. A sensação de que tudo parece obedecer uma ordem interna. Sua precisão em disfarçar o edredon que é menor que a cama de casal, e esse ar de desgraça quando joga o arroz na pia sem mais nem menos... e depois a água que fervia para o café. Observar suas mãos tremendo enquanto tenta acender mais um cigarro do lado de fora da casa, seu desespero em ver os ponteiros do relógio chegando na hora de ir embora. E esse jeito de pedir pra ele ficar mais um pouco, mais um pouco, de soprar a fumaça do cigarro pra longe sem nem perceber. O tom de voz irritado que você usa no fim da tarde, se derretendo na poltrona, “não vou mais”.
Seu olhar cansado e parece, daqui de onde olho, que você já viveu tanta coisa, você continua descascando as frutas sem prestar a menor atenção em nada a sua volta. E depois se esquece de apagar as luzes e anda atrás dele pela casa fazendo 10 perguntas por segundo. Ganhando tempo, te observo ganhando tempo com esse jeitinho clássico de deitar na cama como quem não quer nada, dizendo palavras incorentes quando acorda no meio da noite sem saber aonde está. Escuto sua respiração, seu coração que parece bater fora do peito. Te observo me observando, enquanto escrevo com o simples desejo de brincar com os fatos que você conhece e outros que desconhece, e outros que não existem a não ser nessas linhas imaginárias, que eu traço entre seus gestos e o mundo:
Existe um conter-se e um transbordar-se. Existe um tempo, um espaço, existe um vazio que se coloca entre essas paredes e a porta enquanto os pés brincam de balançar o corpo de um lado pro outro. Existe um peso no olhar que busca a si mesmo, pra se certificar da própria segurança. Existe uma súplica ou um desespero na boca entreaberta. Uma vontade de se afogar no intervalo de estar aqui, encostada na parede, e estar lá. Uma suspensão de tempo no recostar do corpo contra o corpo. E cada vento frio que atravessa esse cômodo, cada ranger de dobradiça, cada tilintar, cada passo no corredor... Existe um detestar profundo quando os pés brincam de pisar e não pisar nesse chão frio.
Me observo te observando.
Seu olhar cansado e parece, daqui de onde olho, que você já viveu tanta coisa, você continua descascando as frutas sem prestar a menor atenção em nada a sua volta. E depois se esquece de apagar as luzes e anda atrás dele pela casa fazendo 10 perguntas por segundo. Ganhando tempo, te observo ganhando tempo com esse jeitinho clássico de deitar na cama como quem não quer nada, dizendo palavras incorentes quando acorda no meio da noite sem saber aonde está. Escuto sua respiração, seu coração que parece bater fora do peito. Te observo me observando, enquanto escrevo com o simples desejo de brincar com os fatos que você conhece e outros que desconhece, e outros que não existem a não ser nessas linhas imaginárias, que eu traço entre seus gestos e o mundo:
Existe um conter-se e um transbordar-se. Existe um tempo, um espaço, existe um vazio que se coloca entre essas paredes e a porta enquanto os pés brincam de balançar o corpo de um lado pro outro. Existe um peso no olhar que busca a si mesmo, pra se certificar da própria segurança. Existe uma súplica ou um desespero na boca entreaberta. Uma vontade de se afogar no intervalo de estar aqui, encostada na parede, e estar lá. Uma suspensão de tempo no recostar do corpo contra o corpo. E cada vento frio que atravessa esse cômodo, cada ranger de dobradiça, cada tilintar, cada passo no corredor... Existe um detestar profundo quando os pés brincam de pisar e não pisar nesse chão frio.
Me observo te observando.