terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ininterrupto Instante

Tempo.
Para escutar as gotas que escorrem pelo vidro.
Para deitar na cama sem acender a luz.
Tempo.
Para ferver mais um bule com água, mais uma foto antes do fim do dia, e mais algumas palavras antes do fim do dia.
A mão direita na palma da mão esquerda.
Para sentir o corpo estendido na cama  antes do fim  do tempo.
O vento soprar o lençol no varal antes da tempestade.
Para escutar o galo cantando cada vez mais rouco.
As tardes serem bordadas pelas senhoras na varanda. O sol escorrer pelas frestas das casas, pelas portas e janelas, pela rua.
Na palma da mão esquerda,
tempo,
para cansar o sentimento.
Para buscar as folhas que voam lá fora. Cavar um buraco para as pequenas coisas.
Para quarar o sentimento em vasilhas d’água parada. Em gestos fechados.
Em vícios.
A mão direita
para conter o movimento das aves,
conter o movimento dos ares,
conter o movimento das nuvens, dos grilos, dos olhos, dos braços.
Para conter a respiração.
Tempo
para escutar outra vez as gotas que escorrem pelo vidro.