sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Achados e Perdidos

Matei o aquário e agora posso escutar minhas memórias
em pane.
Hoje escrevo pra tentar alcançar sua voz com alguma palavra
e quem sabe dizer as coisas desse jeito franco como só ela faz.
(acabei de ler um pouco de Ana Cristina César)
São palavras simples,
me disseram a tarde que eu sou do avesso.
A cabeça latejando faz parte
do sorriso que eu dei ontem, e escolho
que nada disso importa mais do que as músicas que tocam atrás da porta.
Nem mais do que descer a rua de bicicleta.
Assim como escolho sentar desse lado da mesa, desligar o telefone durante a noite,
o lado da cama, e as diagonais de sono. E decido
a partir desse instante, as idéias dormindo na dor de cabeça, que
irei me ausentar de mim por algum tempo,
sabendo,
no sentir,
que a maior distância entre dois corpos é de uma frase
sem resposta, mais cinco azulejos e uma guia rebaixada ou então
um carro velho, duas taças de vinho e o balanço da rede rangendo no ouvido ou
o excesso de palavras, o sorriso no escuro e a mão tamborilando a mesa ou
os olhos fechados, de costas pra parede e cantoralar de mentira,
um afeto pra esquecer debaixo da cama ou
a comida fria, a pintura na parede, uma foto antiga, uma formiga, a correia solta, uma pia, garoa, fim do dia, dois guarda-chuvas.
Sinto muito se minha franqueza não pode te alcançar nessas horas do dia, se
cada palavra se divide em mais outras e a vontade
esparramada, permanece não dita. Não sei mais
o que busco, e quando encontro, me encontro de novo
no momento preciso
de escolher
outra vez
um lado da cama, novas diagonais de sono, algumas frases soltas, descer
a ladeira.