domingo, 27 de dezembro de 2009

Pontos de Vista

Corri pela rua de terra. Tinha uma sombra, do muro da casa que ficava na esquina, uma sombra, que se esticava até mais a frente, aonde o outros estavam parados. De um lado da casa uma placa branca e azul, que eu gosto bastante, com o nome da rua, e na outra parede a mesma coisa. Alí, bem naquele ponto, onde junta uma parede com a outra, é o lugar onde não se pode dizer com certeza em qual rua você está, não se pode dizer nada. E a poeira vermelha do chão levantada, suja a parede e a pele. Não gosto de passar a mão no rosto pra tirar o suor, porque a cara fica seca de barro. Depois, quando franze o olho, por causa da luz, que a gente percebe que o rosto ficou duro e parece que vai rachar. Que nem a tinta da parede da casa. Tomei fôlego porque ainda tinha mais três voltas no quarteirão pra terminar. Tomei fôlego porque depois que eu corresse essa voltas e terminasse eu tinha resolvido dizer pra ele que eu gostava muito de passar aquelas tardes asism, correndo junto, e pra dizer isso parecia que o sol ficava ainda mais forte, mal dando pra enxergar. Gosto da parte de derrapar no chão e levantar a poeira vermelha. Gosto da parte que a gente corre gritando o máximo que dá, com o vento batendo no rosto e entrando na boca. E de sentar na sombra quando acaba e ficar fazendo nada um pouco. Gosto da parte que ele me puxa pela mão preu levantar e diz: até amanhã. Também, pode ser que eu não diga nada. Que fique assim, esse sentimento descansado entre as duas ruas, onde venta no fim do dia, quando a gente já cansou de correr.

Cheguei na casa antes. O bom de chegar antes dos outros é que tem esse silêncio, dá pra escutar o vento e o coração batendo dentro da cabeça. E o barulho do pé na terra, que nem chuva, e a sua sombra sozinha crescendo e depois sumindo na sombra da casa que fica na esquina. Prefiro sentar na parede de cá, embaixo da placa azul, porque venta mais e a outra parece que fica quente de sol até quando não faz calor. É estranho e ninguém senta lá por causa disso. A gente inventou junto que não pode usar palavras nesse ponto onde as ruas se encontram e não dá pra saber em qual rua você está, é um lugar que ninguém pode falar. A gente senta e espera a próxima volta pra poder falar todas as palavras que der, por isso que cansa mais, e a boca fica seca. Eu não gosto de engolir a saliva, porque ela fica com gosto de terra e parece que vai secando a garganta e tudo dentro da gente. Hoje parece mais difícil de respirar quando eles vão chegando e a poeira vermelha sobe cada vez mais, formando uma nuvem de barro. Fica difícil respirar ainda mais porque eu decidi que no fim, quando eu puxar ela pela mão vou aproveitar pra dizer que foi legal passar esse verão assim, correndo junto. Que eu gosto que ela grita também nas partes que o caminho é largo e reto, e depois tem uma ladeira. Que eu gosto que quando ela chega continua dando pra escutar o barulho do silêncio da rua de terra. E que ela senta as vezes na parede estranha. E de quando ela diz: até! Também, pode ser que eu não diga. Que fique assim, esse sentimento calado entre as duas ruas, onde venta no fim do dia, quando a gente já cansou de correr.