domingo, 27 de dezembro de 2009

Pontos de Vista

Corri pela rua de terra. Tinha uma sombra, do muro da casa que ficava na esquina, uma sombra, que se esticava até mais a frente, aonde o outros estavam parados. De um lado da casa uma placa branca e azul, que eu gosto bastante, com o nome da rua, e na outra parede a mesma coisa. Alí, bem naquele ponto, onde junta uma parede com a outra, é o lugar onde não se pode dizer com certeza em qual rua você está, não se pode dizer nada. E a poeira vermelha do chão levantada, suja a parede e a pele. Não gosto de passar a mão no rosto pra tirar o suor, porque a cara fica seca de barro. Depois, quando franze o olho, por causa da luz, que a gente percebe que o rosto ficou duro e parece que vai rachar. Que nem a tinta da parede da casa. Tomei fôlego porque ainda tinha mais três voltas no quarteirão pra terminar. Tomei fôlego porque depois que eu corresse essa voltas e terminasse eu tinha resolvido dizer pra ele que eu gostava muito de passar aquelas tardes asism, correndo junto, e pra dizer isso parecia que o sol ficava ainda mais forte, mal dando pra enxergar. Gosto da parte de derrapar no chão e levantar a poeira vermelha. Gosto da parte que a gente corre gritando o máximo que dá, com o vento batendo no rosto e entrando na boca. E de sentar na sombra quando acaba e ficar fazendo nada um pouco. Gosto da parte que ele me puxa pela mão preu levantar e diz: até amanhã. Também, pode ser que eu não diga nada. Que fique assim, esse sentimento descansado entre as duas ruas, onde venta no fim do dia, quando a gente já cansou de correr.

Cheguei na casa antes. O bom de chegar antes dos outros é que tem esse silêncio, dá pra escutar o vento e o coração batendo dentro da cabeça. E o barulho do pé na terra, que nem chuva, e a sua sombra sozinha crescendo e depois sumindo na sombra da casa que fica na esquina. Prefiro sentar na parede de cá, embaixo da placa azul, porque venta mais e a outra parece que fica quente de sol até quando não faz calor. É estranho e ninguém senta lá por causa disso. A gente inventou junto que não pode usar palavras nesse ponto onde as ruas se encontram e não dá pra saber em qual rua você está, é um lugar que ninguém pode falar. A gente senta e espera a próxima volta pra poder falar todas as palavras que der, por isso que cansa mais, e a boca fica seca. Eu não gosto de engolir a saliva, porque ela fica com gosto de terra e parece que vai secando a garganta e tudo dentro da gente. Hoje parece mais difícil de respirar quando eles vão chegando e a poeira vermelha sobe cada vez mais, formando uma nuvem de barro. Fica difícil respirar ainda mais porque eu decidi que no fim, quando eu puxar ela pela mão vou aproveitar pra dizer que foi legal passar esse verão assim, correndo junto. Que eu gosto que ela grita também nas partes que o caminho é largo e reto, e depois tem uma ladeira. Que eu gosto que quando ela chega continua dando pra escutar o barulho do silêncio da rua de terra. E que ela senta as vezes na parede estranha. E de quando ela diz: até! Também, pode ser que eu não diga. Que fique assim, esse sentimento calado entre as duas ruas, onde venta no fim do dia, quando a gente já cansou de correr.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Tratos Desfeitos

Quando deito
estaciono minhas vontades entre meus pés e os seus. Respiramos. Gosto.
De acompanhar seu ritmo. Com os olhos, e do jeito como os pensamentos de repente pousam no seu rosto.
Desamarro as vozes perdidas
atrás da porta em sussuros delirantes, inventamos histórias para dormir.
E alguns gestos que me arrancam do sono.
São vagas proferidas com a harmonia de uma tempestade. Tem sempre uma mão para amparar verdades que se partem em choques violentos contra as paredes do quarto.
Você segue esticando com as mãos a colcha que cobre a cama.
E os silêncios que carrego. Não escuto mais o que contam as frases.
Gosto de acompanhar seu ritmo.
A calmaria que sucede o desespero. De sentir.
A velocidade com que sou atirada para fora de mim, uma vez, muitas, e agora
que posso me ver: sentada aos meus pés, os olhos queimando,
desato os nós do cabelo e me perco
nos detalhes de uma imagem que aos poucos se forma atrás de minha cabeça. Que minha boca não alcança
com palavras.
Cala a boca.
Já não bastam as paredes: gritando, os pensares que se desencontram em todas as direções. Respira.
Queria pedir pra não dizer, tem algumas histórias que te arrancam do sono.
Toda noite. Você conta mais uma vez para si mesmo. Desassossego.
Cala a boca. Quando eu deito
descanso meus medos entre nossas mãos e
tem sempre o chão: para estancar as palavras atiradas.
Gosto de te acompanhar.
Nesses tempos. Desde o início o nascer se soube morte.
Assiste.
As histórias que nos atravessam. Enfim.

Foto II

Foto I

domingo, 13 de dezembro de 2009

Foto


sábado, 12 de dezembro de 2009

Vida Silenciosa

Ao redor daquilo que me impressiona traço os gestos e olhares.
E assim, em pequenas circunferências, ofereço a imagem que se forma quando danço tudo aquilo que não é a própria imagem, mas que nela esbarra silenciosamente e mesmo que por poucos instantes.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Enquadramento

Começo. Não tenho calma. Vou. Empilhei os livros no canto da sala enquanto esperava a melhor luz. Abri a janela. Meia hora. Subi na pilha de livros quando a sala inteira puxou para o vermelho em todas suas cores. Cinco minutos. Desatino. Me lancei da pilha de livros para o insuspenso lugar da queda. Antes. Uma francesa cantava no rádio uma melodia azul. Alguns segundos. O dia morria por detrás das construções e a porta abriu. Pausa. A porta abriu. Oito segundos depois. No canto da sala estava uma pilha de livros. Esperei. Duas horas. Abri um livro do meio da pilha que desmoronava e li a última página. Lusco-fusco. Respira. “Minotauro – Agora sim. Agora é preciso dançar.” Dez minutos. Fechei o livro, fechei a janela. A francesa cantava no rádio uma melodia azul. Pausa. Acendo o abajur entre as histórias que dormem aos meus pés. Uma sala inteira de gestos em páginas. Em horas. Fechei os olhos. Agora. Uma japonesa gira meia-voltas em cima de um sofá vermelho na sala. 4 e 47. O lugar do fim.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Manhã

Sem perceber o estado avançado dos olhares, antes do habitual “bom dia”, ela disse o que não podia deixar de ser:
As vezes tudo se parte.
Basta uma batida de sinos numa igreja distante durante a manhã.
E tudo se parte.
A toalha branca de renda,
o aparador em baixo da janela,
o sol queimando o batente da porta,
os móveis quentes da sala,
as paredes caiadas, ao meio-dia cegando os olhos,
o despertar entre as palmas da mão
e o colo.
Sem nenhuma intimidade.
Ao meio-dia as casas estão trincando.
As casas, eu, você.

domingo, 22 de novembro de 2009

Crise

O difícil de escrever é quando sei quem lê. É complicado quando o público aparece antes da obra, senta nas cadeiras em volta da mesa, dando palpites em cada frase, comendo a comida da geladeira, fazendo barulho no jardim, contando como vai ser o dia de amanhã. Dificil escrever com toda essa gente por cima do ombro, respirando nas suas costas sem dar um tempo: o tempo de fingir que não existe mais ninguém no mundo.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Outro Dia

Naquele dia acordou cedo, e como sempre, abriu a janela, desceu de havaianas até o quintal.
Naquele dia não tinha reunião, não tinha tocado o celular em algum horário perdido no sono. Não tinha grampo de cabelo na poltrona, não tinha quarto abafado.
Acordou cedo e como sempre 5 canecas em cima da mesa pra levar até a cozinha. Não tinha o chá preferido, não tinha pão, não tinha ninguém sentado na cadeira olhando.
Acordou e tomou o chá do dia anterior porque é melhor que água logo cedo. Naquele dia não tinha nenhum e-mail novo, nenhum recado, nenhuma roupa perdida. Nao tinha medo, não tinha saudades, não tinha praia nem piscina também.
E como sempre, não tinha luz. Sem fotografia, nem música, nem passarinho na árvore. Não tinha filme passando na parede do quarto, nem desconsolo no telefone ou em cima da cama.
Não tinha nuvem no céu, mas não tinha sol.
Nesse dia em que acordou cedo, e como sempre abriu a janela e desceu de havainas até o quintal não tinha pressa, não tinha prazo. Só meios tempos entre cada impossiblidade de realizar alguma tarefa de costume. Não tinha volta e mais uma vez.
Sem copos quebrados, sem fila no banheiro, sem louça na pia. Acordou no meio tempo da vida e da falta de cotidiano, cedo, desceu de havainas e meia para regar as plantas do quintal.
Mas persistia a impossiblidade de usar a torneira, a estante continuava na frente.
Naquele dia não regar as plantas seria um alívio, a única certeza entre tanta incerteza. Não regar as plantas era o que tinha a fazer tão cedo. Não regar as plantas talvez trouxesse o dia de volta pro seu eixo, ou então tirava de vez. Não regar as plantas era também a única coisa que não ficaria sem fazer, não importava o dia, não importava a falta de certeza.

Acordou cedo, e naquele dia sem fé, a estante de testemunha, desceu de meias até o quintal e regou as plantas. Simples como mandar tudo para o inferno antes do meio-dia.

domingo, 8 de novembro de 2009

Quarto

Pegue esse caminho que corre na beira da cama.
Existe um ponto nesse caminho que se chama descanso. E quando chegar nesse ponto quero que descanse por mim, o descanso dos solitários, o descanso de quem não teme.
Nesse ponto, quero que me devolva o sono, os olhos fechados ou abertos naquilo que me sustenta. Se não conseguir,
então fico ao teu lado até que durma. Existe um ponto
aqui, um ponto inexato.
Espero que você durma, e nesse ponto pretendo encontrar algum sono para mim.
Quando sonhar, que seja com esse caminho que corre na beira da suas palavras. Que seja....
Que leve para longe. Qualquer coisa que leve para longe
daqui, onde  a grama desenrola lentamente da montanha ao fim da tarde, para cair em estardalhaço aos meus pés toda noite.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ininterrupto Instante

Tempo.
Para escutar as gotas que escorrem pelo vidro.
Para deitar na cama sem acender a luz.
Tempo.
Para ferver mais um bule com água, mais uma foto antes do fim do dia, e mais algumas palavras antes do fim do dia.
A mão direita na palma da mão esquerda.
Para sentir o corpo estendido na cama  antes do fim  do tempo.
O vento soprar o lençol no varal antes da tempestade.
Para escutar o galo cantando cada vez mais rouco.
As tardes serem bordadas pelas senhoras na varanda. O sol escorrer pelas frestas das casas, pelas portas e janelas, pela rua.
Na palma da mão esquerda,
tempo,
para cansar o sentimento.
Para buscar as folhas que voam lá fora. Cavar um buraco para as pequenas coisas.
Para quarar o sentimento em vasilhas d’água parada. Em gestos fechados.
Em vícios.
A mão direita
para conter o movimento das aves,
conter o movimento dos ares,
conter o movimento das nuvens, dos grilos, dos olhos, dos braços.
Para conter a respiração.
Tempo
para escutar outra vez as gotas que escorrem pelo vidro.

sábado, 24 de outubro de 2009

Setembro

Que durante a noite eu tenha me debatido contra mil noites que se lançavam contra o corpo, vindas de todas as direções, que ontem minha mão buscava arrancar o coração do lugar de onde ele parecia se desmanchar demoradamente, pedaços de carne morna e pesada. Ontem o choro veio do desconhecido e todos os gestos perdidos não eram suficientes para interromper o meu corpo de sentir o medo rastejar por baixo das cobertas. Que a mão não tenha conseguido se fechar em nada, nem nas roupas, nem na carne, nem no vazio.  E então te leio em mil pedaços, e sinto a tranquilidade mais enlouquecedora de saber que o sentir coube em palavras e entre elas.... e em nenhuma delas. Ontem o coração se arrebentou contra uma solidão crespa e velha, de afetos estagnados que azedam no tempo. E você diz aquilo que escorre na minha saliva, quando à noite os desejos sem aonde rasgam a pele sem jamais conseguir me rasgar... quando tudo que eu queria era arrancar com os dedos e os dentes o que sobrou desse coração doente, do corpo, dos gestos, dos sussurros, das respirações e ainda nesse segundo de escuro úmido encontro alguma delicadeza. Porque ontem à noite ser eu nos meus ossos era pequeno demais para cada minuto de desespero que cortava a boca aberta em silêncios molhados e quentes. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Achados e Perdidos

Matei o aquário e agora posso escutar minhas memórias
em pane.
Hoje escrevo pra tentar alcançar sua voz com alguma palavra
e quem sabe dizer as coisas desse jeito franco como só ela faz.
(acabei de ler um pouco de Ana Cristina César)
São palavras simples,
me disseram a tarde que eu sou do avesso.
A cabeça latejando faz parte
do sorriso que eu dei ontem, e escolho
que nada disso importa mais do que as músicas que tocam atrás da porta.
Nem mais do que descer a rua de bicicleta.
Assim como escolho sentar desse lado da mesa, desligar o telefone durante a noite,
o lado da cama, e as diagonais de sono. E decido
a partir desse instante, as idéias dormindo na dor de cabeça, que
irei me ausentar de mim por algum tempo,
sabendo,
no sentir,
que a maior distância entre dois corpos é de uma frase
sem resposta, mais cinco azulejos e uma guia rebaixada ou então
um carro velho, duas taças de vinho e o balanço da rede rangendo no ouvido ou
o excesso de palavras, o sorriso no escuro e a mão tamborilando a mesa ou
os olhos fechados, de costas pra parede e cantoralar de mentira,
um afeto pra esquecer debaixo da cama ou
a comida fria, a pintura na parede, uma foto antiga, uma formiga, a correia solta, uma pia, garoa, fim do dia, dois guarda-chuvas.
Sinto muito se minha franqueza não pode te alcançar nessas horas do dia, se
cada palavra se divide em mais outras e a vontade
esparramada, permanece não dita. Não sei mais
o que busco, e quando encontro, me encontro de novo
no momento preciso
de escolher
outra vez
um lado da cama, novas diagonais de sono, algumas frases soltas, descer
a ladeira.

sábado, 10 de outubro de 2009

Fatos Desfeitos

Observar sua concentração, e seu jeito de acender o fogo. Sua falta de habilidade em desossar o frango, enquanto conversa com as pessoas da casa, a expressão mudando quando ele chega. Seu olhar buscando o caminhar dele pelos cômodos, seus gestos quando finge que não liga, o balançar vago da sua cabeça como quem diz “olha, parece que a manhã termina em cima dessa mesa azul de fórmica” ou “bolo de fubá”, isso, seus cabelos presos como quem diz “bolo de fubá”. Essa piscada de um olho só sem motivo nenhum. Seu jeito de contar a mesma historia 4 vezes, e levantar do sofá para alinhar o quadro da parede com a linha imaginária que você traçou entre os objetos da sala. A sensação de que tudo parece obedecer uma ordem interna. Sua precisão em disfarçar o edredon que é menor que a cama de casal, e esse ar de desgraça quando joga o arroz na pia sem mais nem menos... e depois a água que fervia para o café. Observar suas mãos tremendo enquanto tenta acender mais um cigarro do lado de fora da casa, seu desespero em ver os ponteiros do relógio chegando na hora de ir embora. E esse jeito de pedir pra ele ficar mais um pouco, mais um pouco, de soprar a fumaça do cigarro pra longe sem nem perceber. O tom de voz irritado que você usa no fim da tarde, se derretendo na poltrona, “não vou mais”.
Seu olhar cansado e parece, daqui de onde olho, que você já viveu tanta coisa, você continua descascando as frutas sem prestar a menor atenção em nada a sua volta. E depois se esquece de apagar as luzes e anda atrás dele pela casa fazendo 10 perguntas por segundo. Ganhando tempo, te observo ganhando tempo com esse jeitinho clássico de deitar na cama como quem não quer nada, dizendo palavras incorentes quando acorda no meio da noite sem saber aonde está. Escuto sua respiração, seu coração que parece bater fora do peito. Te observo me observando, enquanto escrevo com o simples desejo de brincar com os fatos que você conhece e outros que desconhece, e outros que não existem a não ser nessas linhas imaginárias, que eu traço entre seus gestos e o mundo:
Existe um conter-se e um transbordar-se. Existe um tempo, um espaço, existe um vazio que se coloca entre essas paredes e a porta enquanto os pés brincam de balançar o corpo de um lado pro outro. Existe um peso no olhar que busca a si mesmo, pra se certificar da própria segurança. Existe uma súplica ou um desespero na boca entreaberta. Uma vontade de se afogar no intervalo de estar aqui, encostada na parede, e estar lá. Uma suspensão de tempo no recostar do corpo contra o corpo. E cada vento frio que atravessa esse cômodo, cada ranger de dobradiça, cada tilintar, cada passo no corredor... Existe um detestar profundo quando os pés brincam de pisar e não pisar nesse chão frio.
Me observo te observando.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sem Título

Para o corpo náufrago,
o silêncio das ondas sussurrado ao pé do ouvido.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Reflexão - 15.05.2006

diante dessa falta de precisão
o braço fraco sustenta o peso das lembranças
o pulso doente resmunga a duração de todas elas.


e de hoje - trecho de um rodapé do "Livro por vir", Maurice Blanchot


"Aquele que deseja lembrar-se deve confiar-se ao esquecimento, ao risco que é o esquecimento absoluto, e ao belo acaso que se torna, então, a lembrança."

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sonho - 05.05.09

Então existe uma criança.
Existe também alguns casacos vermelhos e um ônibus na rua larga.
Existe alguém importante que me diz frases que devo lembrar, que esquentam.
A rua se desmancha em folhas ao vento, eu crio um monstro dentro de mim e ele tem flores na cabeça.
Os olhos me conduzem para um lago ao fim da escada. Entramos dentro d'água, é raso e transparente.
Estou sozinha.
Então existe uma criança, ela me dá um copo vazio que eu encho com olhos, que tiro do meu bolso encharcado de lago-no-fim-da-escada.
Cadê o urso? Todos gritam ao mesmo tempo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Rascunho do Dia

Que eu não deveria estar aqui sabem minha cama e meus lençois.
É preciso 10 escudeiros para salvaguardar as idéias mais ridículas que alguém poderia ter, sentado nessa cadeira - e ainda por cima tomando chá no entre horário da manhã como ela deveria ser e do meio-dia desejado.
E mesmo assim, que a muralha da China se erguesse na minha varanda, ia sobrar um espaço pra contar o último segredo, antes de fechar o olho por cima de uma pergunta leve ou desse meio travesseiro.
Que o dia comece invariavelmente na raiz do cabelo, como uma quina inesperada de mesa, isso sei eu e outros tantos que não apagam a luz na noite adentro dos prédios da frente...
Isso quando a janela não toma o lugar da varanda e aí nem mais um chá no entre horário do sono que eu deveria dormir e do café que consagra a primavera poderiam impedir um dia inteiro, armado em cima da mesa da cozinha por duas pessoas incoerentes no movimento das próprias mãos.


domingo, 30 de agosto de 2009

Três Tempos

1

A escolha de percorrer este caminho assim, com os pés estreitos. A paisagem trêmula. Nada se aprecia que não seja o próprio movimento... e esse caminhar quase perdido comprimindo-se contra objetos que são deixados de lado, um depois do outro deixados no tempo sem nenhuma ordem, eu te pergunto aonde com outras palavras eu te pergunto: tudo o que não quero saber e desapareço em algo não dito novamente e outra vez. O sofá que se desmancha, e a ponta do meu dedo na palma da sua mão. A paisagem agora arrastada com força pra longe, de uma vez só, as cadeiras tombando incessantemente, agora e agora e agora. Mais uma vez, eu acordo pedindo: a sua história mais uma vez, me conta por onde escorriam as cores dos dias em Nápoles?

2

25 rotações depois ela chega trazendo um alfinete nas mãos, como sempre atrasada e os cabelos sem ordem que se esparramam no tempo. 25 rotações. Em 25 rotações ela se esparrama sem ordem, os alfinetes no tempo se atrasando, os cabelos nas mãos. 25 vezes ela repete o gesto como sempre os cabelos, e entrega no tempo o atraso de um alfinete com as mãos. 25 homens sem tempo, as mulheres em ordem se atrasam, os alfinetes esparramados no chão. As mulheres sem ordem os alfinetes nas mãos. Ela se esparrama no chão, os cabelos em ordem, 25 gestos com as mãos, o tempo se atrasa no homem.

domingo, 23 de agosto de 2009

Ontem (em algum mês passado)

Minhas palavras sobre suas palavras
e de outra vez
suas palavras sobre os meus silêncios
A vida descansando entre os gestos
E de uma vez
ofereço à estes precipícios pensamentos inertes

a insistência do tempo sobre os pesares
a vagueza dos caminhos que me percorrem
o medo de me encontrar de novo
ao pé do vazio que se ergue nos ventos

Querer contar que eu morro.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mar

Em qual direção está a superfície, quantos dias demora para se desafogar e tomar ar, quanta água se engole, qual a distância do mergulho, qual a força das marés que não se conhecem, em que praia as ondas agora se arrastam, qual o nome dessas águas, quantas histórias serão contadas, que vozes gélidas no canto de uma sereia desviam o navegante, qual é o seu nome nas horas tristes do dia, a que horas o sol se perde no mar, quais os caminho de volta navegante? Quem te ensinou a nadar? Quantos mares foram singrados sem que algo fosse perdido, sem que algo fosse encontrado? O que te leva, de novo navegante, a buscar o mar?






segunda-feira, 18 de maio de 2009

Cena 1


Que a distância se coloque, se arrastando entre as tábuas corridas.
Nessa cama preparada, cada dobra tão insuportável quanto a outra.

As mãos não se seguram firmes e em cima da mesa não temos nada para nos distrair.
Estamos sós. O vento forte buscando navios no alto mar. Navios para as palmas da mão. 
Seguimos escutando o ecoar dos passos e infinitamente continuamos a escutar o ecoar dos passos.

Como chegar aqui?
Onde os olhos alcançam apenas horizontes e as mãos se encostam de leve para saber que existe uma temperatura, algo pra singrar os barcos. A grama sob os pés derretendo.

domingo, 26 de abril de 2009

Solo

Do estado das coisas
E de mim mesma, e de quando não sou mesma, e me ultrapasso
Em lentas pilhas daquilo que se coleciona do tempo.
Dos mundos que se precipitam em cada divergência,
Em cada descontração de tempo, em cada liquefação, em cada transformação
Do estado das coisas.
Do que transborda de cada historia prensada.
O que transborda de mim, e me ultrapassa.

“a duração é tão somente essa própria coexistência, essa coexistência de si consigo”

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Que Acontece Quando

As coisas se estendem nessa direção, onde não se acostumou a sentir, como não se está acostumado a. Do outro lado da braçada um. Daqui de longe, esquecer de olhar. Agora em volta não tem. Se ficar ruim. Se ficar pior. A imagem não parece ajudar, nem os seus olhos ou os seus ou os seus. Nem a sua mão, nem sua voz, nem a sua. Não é pra ninguém que eu quero falar, não é com vocês que fico tranqüila, não é pra vocês que eu quero contar, nada. Nenhum. O muro antigo onde apoiava, a casa velha onde deitava. A sala aberta, a porta escura, a carta crua, a estúpida calmaria, as folhas sujas. E tudo que foge embaixo da terra. O dia pende nesta direção. A luz é fria, o sino toca sem campanário, o sino toca na mão de alguém, o céu devora os risos largos. A sua cara. A vontade não se sustenta nessa direção. Nem os seus passos. O dia morre. O dia turvo, o dia estúpido. Qualquer dia seria um. Você vestido de. Todos os rostos. E o seu fruto espalha nesse corredor, esses vícios lentos, essas outras coisas. Elas se compreendem nesse fluxo torto. Que eu não gosto. Que eu detesto, como detesto. Se está só, sem ter pra onde.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Estudos Para a Casa

Penso um lugar claro, tão claro que fosse talvez impossível reconhecer as fissuras que pudessem existir nestas paredes que penso.
Penso eu e ela, de azul escuro escapando pela luz para dentro da luz, sem conseguir abandonar o espaço.
Penso que você poderia me ajudar a desafogar minhas idéias e sei que isso pode ser muito.
Penso um mar de garfos e colheres, escumadeiras e coadores de metal, e a figura de uma mulher imantada que não consegue se livrar.
Que você poderia me ajudar a desafogar minhas idéias e sei que talvez isso seja impossível.
E nesses momentos sinto que poderia chorar porque talvez morra com todas elas dentro de mim sem ter conseguido contar nenhuma delas da maneira como gostaria.
Volto a pensar que esse estudo seria eu e ela, muito mais afogadas e rindo à toa num cômodo que não sabemos dizer qual é. Que a mulher imantada poderia cantar uma música bem baixinho, sentada no hall de entrada de lugar nenhum, porque esse seria o lugar dela: o lugar nenhum, como o meu.
Penso que esse estudo seria acima de tudo realmente um estudo, assim poderíamos experimentar os batentes das portas inexistentes e a falta delas. Então gostaria de um sofá no qual eu me sentasse e tudo fosse dito por mim sem complicações pra te observar segurar a idéia no ar.
Penso que são sempre estudos sobre a casa.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Um Escrito de Tristeza de Incerteza

Escrevo
Escrevo
Escrevo
Escrevo
Sabendo que não me levarei a lugar nenhum assim
Nenhum lugar distante deste em que me encontro
Nenhum lugar definitivo e longe daqui
Nenhum lugar onde você não me alcance
E me imagino agora uma pessoa pequena descendo do lugar mais alto
Encostando o pé bem devagarinho no chão
Para me desfazer das coisas.

Catadora de Danças

vou te dizendo em mim silenciosamente no espaço, nem saberia melhor o que virou você em mim que não fosse movimento,
e derramando-o aos seus pés, para que você olhe.
Invento o tempo em dança pra você... não poderia te oferecer mais que isso, nem maior, nem menor, nem mais.
Não poderia pensar sobre você em mim melhor que me desmanchar em danças
sob seus olhos.

terça-feira, 17 de março de 2009

Tentativa #1

assistir o fim do dia se espatifar sobre o mar
os passos rasgando segundos estridentes
o desejo se arrebentando no chão
juntar os pedaços em cima da mesa onde se juntam mãos
e se deixar estar nas horas como quem se deixa estar no sofá
em tardes de porcelana
respirar com cuidado de não desmanchar o tempo
não é o suficiente
prender a respiração
assistir o dia escapando pela tangente possível do seu olhar
não é o suficiente